segunda-feira, 18 de agosto de 2014

A vida após a morte segundo a Tradição Ortodoxa, de Jean-Claude Larchet - Parte 2


Antes de continuar descrevendo o processo da morte de acordo com a Igreja, segundo descrito na obra ''Life after Death according to the Orthodox Tradition'', de Jean-Claude Larchet, faço cá um parêntese para expor certas posições do autor sobre as ''Experiências de Quase Morte'', ou seja, aqueles relatos de gente que chegou perto de bater as botas mas conseguiu sobreviver e relatar o que vivenciou naqueles momentos em que estava inconsciente ou com a morte clínica constatada pelos médicos. Há vários e vários relatos deste tipo, alguns deles surpreendentes, como o de cegos que, neste estado de morte clínica, foram capazes de contar depois tudo o que viram ao seu redor e até em outros cômodos. Há livros inteiros que reúnem este tipo de narrativa, classificando-as e retirando delas alguma forma de padrão. Um dos mais famosos é o ''Life after Life'', do Dr. Robert Moody. Muitos destes padrões são corroborados pela tradição ortodoxa. Essas experiências, porém, tem de ser lidas com cuidado por causa da possibilidade de interveniência de ilusões demoníacas.

3) Após descrever as percepções sobrenaturais que o sujeito vivenciadas pelo sujeito que se encontra diante da morte, a obra passa a abordar o processo em si e as diferentes etapas por quais passa a alma em seu caminho para a vida futura. Estas etapas são abordadas pela Ortodoxia a partir de uma representação cronológica dividida principalmente em três fases: até o terceiro dia após a morte clínica; do terceiro ao nono dia; do nono ao quadragésimo dia. É muito importante notar que esta representação possui uma natureza também simbólica.

A temporalidade do mundo espiritual não é aquela vivenciada na realidade corporal, então não há porque esperar que estes períodos de tempo sejam exatamente aquilo que conhecemos no cotidiano. Há uma associação temporal mas que não é certamente unívoca. Outra questão bastante importante a ser ressaltada é a própria palavra ''processo''.

Embora exista um momento exato da morte clínica, a separação entre alma e corpo não é algo instantâneo nem irreversível, mas se estende durante um determinado período de tempo. É este lapso de tempo que será abordado agora, os primeiros três dias após a morte clínica, em que a separação do corpo e alma ainda não é incontornável nem total ou completa.

4) Há uma tradição que afirma que o indivíduo ainda pode retornar à vida antes de completado este período de três dias após a morte clinica. Por isso há o costume piedoso de só enterrar o ente querido após o terceiro dia. Outra consequência desta tradição, segundo o autor, envolve a prática contemporânea da doação dos órgãos.

Como a alma ainda se encontra muito ligada ao corpo nessa fase, seria desaconselhável a retirada de seus órgãos, pois isso poderia traumatizá-la e afetá-la de alguma maneira. Este tópico é controverso entre as várias jurisdições da Igreja, mas é comum um certo repúdio quanto a doação de certos órgãos, como o coração e os pulmões.

Este repúdio se fundamenta no conhecimento sobre o papel do corpo e sua ligação com a alma inclusive após a separação entre ambos. Diferente das doutrinas que minimizam o papel e função do corpo no homem, encarando-o apenas como uma roupa que em nada afeta a personalidade, a Igreja ensina que a pessoa humana é composta por dois elementos complementares que existem um em função do outro em uma relação que se inicia com a vinda à existência do indivíduo e que não se esgota em nenhum momento, nem mesmo com a morte. Após a dita cuja, a alma retém potencialmente em si a memória e forma do corpo, bem como as faculdades que por ele se expressam.

Da mesma maneira, há santos Padres, como Máximo o Confessor e Gregório de Nissa, que ensinam que os elementos que formam o corpo também guardam em si uma afinidade com a alma, de modo que, mesmo quando dissolvidos e espalhados pela criação, são conhecidos por ela, e continuam ainda 'pertencendo' àquela Hipóstase humana particular. É desta maneira que todo corpo humano é também uma relíquia, pois está ligado à personalidade que o possuiu.

O culto cristão às relíquias se baseia nesta verdade, pois os elementos corporais não são venerados em si, mas é a pessoa à qual pertencem e a qual continuam ligados que é venerada através deles. [No caso dos santos, como são energizados por Deus, suas relíquias acabam também operando milagres.] O cuidado com o ente falecido é expressão não apenas de uma honra ao corpo, mas uma honra à pessoa humana, à qual este corpo está e sempre estará associada, inclusive após a morte. Em alguns países ortodoxos há o costume piedoso, por exemplo, de após cinco anos após o falecimento do indivíduo, exumar seus restos mortais, lavá-los com vinho e levá-los à Igreja para um serviço em memória, após o qual serão colocados em um ossuário na esperança da futura ressurreição.

É por isto também que a cremação é repudiada pela Igreja e vista como uma forma ou intenção de aniquilação, desrespeito e desamor. Todo este cuidado com o corpo da pessoa humana, bem como os ritos funerários e de memória, encontram sua imagem na santas miróforas, que cuidaram do Senhor quando de Seu sepultamento.

5) A morte clínica em si é, em geral e independente da maior ou menor santidade da pessoa, muito angustiante e dolorosa para alma. A explicação para tal é que a separação entre alma e corpo é anti-natural, como descrito no item anterior. Isto posto, o evento pode ser facilitado ou dificultado pelas virtudes ou vícios que o sujeito carrega. Uma pessoa que levou vida piedosa e dedicada a Deus, retificando suas paixões e conquistando os dons do Espírito, tende a se elevar para o alto de modo muito mais simples, desvencilhando-se da carne sem maiores apegos.

Há inclusive casos raros de santos que foram levados imediatamente para o Paraíso logo após a morte, tamanha a iluminação e glória possuíam. Mas, em geral, a pessoa possui um certo grau de virtude e vício que influenciará na sua partida deste mundo.

Quando o indivíduo é muito apaixonado e apegado a essa realidade material e ao corpo há muitos obstáculos em sua partida, e alguns santos, como Santa Macrina e São Gregório de Nissa, explicam desta maneira a existência de fantasmas.

Quando do falecimento, as faculdades anímicas ligadas ao corpo continuam fazendo parte da alma, mas em estado potencial pela falta dos meios necessários à sua expressão.

6) A partir da separação da alma e do corpo, a batalha pelo homem que teve lugar em toda a sua existência, se intensifica ou ganha novos contornos. Anjos e demônios se apresentam à hora da morte buscando levar a alma com eles. As imagens proporcionadas pela Igreja apresentam estes seres espirituais como dois exércitos colocados um de frente para o outro e prontos para a batalha pela alma. A pessoa vai se inclinar para cada um deles de acordo com suas tendências durante a vida e no momento da morte. Deve ser ressaltado que a alma mantém no além o estado apresentado no momento de sua morte. Depois disto, ainda que queira, ela não pode alterá-lo pela falta justamente do corpo e de seu ambiente, necessários à expressão da metanoia e de seus frutos.

Após a morte, o estado da alma só pode ser alterado por uma intervenção outra, da Igreja e de seus santos, por meio das orações e serviços litúrgicos. Voltando à batalha pela alma, o momento da separação é como um julgamento, no qual os demônios tentarão reconhecer na alma as paixões que lhe são correspondentes e às quais ela mesma se escravizou durante sua vida terrena, a fim de arrastá-la com eles para o Hades. Nas imagens da Igreja, as almas tem de pagar aos demônios com os elementos de si próprias que são a afins às forças da escuridão, e os indivíduos que partem cheios de vícios são despedaçados por estes poderes das trevas.

Outras imagens apresentam as almas que partem sendo defendidas pelos anjos, principalmente pelo anjo da guarda e pelo anjo psicopompo, citados na resenha anterior, e que reúnem todas as virtudes e bons atos praticados pelo indivíduo a fim de apresentá-los como compensação e livrá-los da garra das potestades do ar. O fato é que a alma enfrentará o terrível obstáculo dos poderes tenebrosos após a morte, que buscarão impedir sua subida até os céus e mergulhá-la e escravizá-la no inferno.

Durante os três primeiros dias, a alma permanece na terra, sob a influência ou dos anjos ou dos demônios, em volta do seu corpo ou visitando os lugares que lhe sejam mais afins. No terceiro dia, que é simbolicamente associado à ressurreição de Cristo e à Sua saída do túmulo, se inicia sua ascensão até os céus para ser julgada diante do Trono do Senhor.

Este processo, sintetizado nas imagens das batalhas entre anjos e demônios no momento da morte, é mais detalhado pelos santos nos ensinamentos sobre os 'telônios aéreos', dimensões associadas a uma hierarquia de paixões e nas quais, gradualmente, as almas são acossadas e atacadas pela fúria dos demônios que se reúnem em torno dela como 'leões prontos para devorá-la'. Este será o tema da próxima postagem.

FIM DA PARTE 2 / CONTINUA

- André Luiz dos Reis

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

A vida após a morte segundo a Tradição Ortodoxa, de Jean-Claude Larchet - Parte 1


Meses atrás comecei a ler um excelente livro sobre a morte segundo a Santa Tradição. Mais especificamente, o tema é aquilo que ocorre com a pessoa no processo de separação entre alma e corpo e nos dias que a ela se seguem. O nome da obra é “Life after Death according to the Orthodox Tradition”. O autor é Jean-Claude Larchet, doutor em filosofia e teologia pela Universidade de Estraburgo e que se converteu do catolicismo-romano para a Santa Igreja aos 22 anos de idade. As fontes usadas são aquelas que embasam qualquer estudo da Santa Tradição, os escritos dos Santos Padres e Anciãos e os textos litúrgicos. Vou fazer pequenas 'resenhas', bem informais, sobre os principais tópicos da obra a fim de dividir tais preciosidades com quem quer se interesse.

1) O primeiro ponto abordado é o significado da morte segundo a Igreja. O homem foi criado em um estado entre a mortalidade e a imortalidade, entre a corrupção e a incorrupção; isto é, Adão possuía em si a possibilidade de, ao obedecer o mandamento que lhe havia sido dado por Deus, prosseguir na imortalidade que lhe fora atribuída por Graça Divina até conquistá-la efetivamente. No entanto, ao se apartar da vontade divina, o homem passou pela experiência da morte espiritual [o obscurecimento do Nous, a faculdade mais elevada da alma e que lhe permitia discernir a essência das coisas criadas e se unir ao Espírito Divino, e a desordem de seus poderes psicossomáticos, ou seja, de suas paixões] e, como consequência desta, da morte física. Uma vez sob o domínio da morte, o diabo pôde se aproveitar deste novo estado para incitar ainda mais o desvio das paixões humanas. A Encarnação de Cristo, bem como Sua Paixão, Morte e Gloriosa Ressurreição, propiciou ao homem a possibilidade de quebrar os grilhões da morte, tanto espiritual quanto física. Embora esta última continue ocorrendo, seu sentido muda radicalmente por causa da esperança da futura Ressurreição geral. 


Um parêntese: o autor indica como os Santos Padres ensinaram que a morte física também tem um aspecto positivo. Mais do que uma simples ''punição divina'' ao pecado, como é encarada comumente no Ocidente, trata-se de um bem retirado de um mal, pois permite que o homem decaído coloque fim aos seus pecados seja pelo simples limite temporal colocado à sobrevivência sobre a terra, seja por oferecer uma oportunidade de discernimento da impermanência de um mundo sem Deus e a consequente oportunidade de metanoia [arrependimento] na contemplação do próprio e no dos demais entes. É neste sentido que a morte [física] abre espaço para a vitória sobre a própria morte [espiritual], o que mais tarde será realizado plenamente pelo Cristo.


2) Depois destes esclarecimentos sobre o significado acima descrito, a obra passa a descrever as percepções do sujeito durante o processo de separação entre alma e corpo segundo o que se pode depreender das fontes ortodoxas. Os santos, em geral, viam como uma benção a existência de uma período de preparação para a morte, no qual o homem toma consciência gradual de seu estado e do fim da vida terrena que se aproxima. Esta é uma alternativa muito melhor do que falecer de repente, sem preparação, caso que pode ser traumático para o indivíduo. O período de preparação não apenas pode facilitar o desapego dos laços mundanos como também incentivar o arrependimento, crucial neste momento fundamental da existência em que estamos prestes a ficar diante do temível tribunal de Cristo. 


O processo de separação do corpo e alma propicia uma série de percepções 'sobrenaturais' ao sujeito que por ele passa. Cito as mais importantes:


a) É muito comum que a pessoa se sinta ''fora do corpo'', ou dissociada dele, sobrevoando o local onde está morrendo. Neste estado, é capaz de discernir tudo o que está ao seu redor, incluindo aí os demais indivíduos e seus estados de ânimo. Isto ocorre ainda que o corpo se encontre inconsciente e incapaz de expressão pelas vias naturais. Trata-se de uma percepção por meios extra-corporais, portanto.


b) É praticamente universal a percepção do mundo espiritual por meio de sons, e, principalmente, do contato com anjos e demônios. Pelo menos dois anjos se farão presentes na morte do homem, o seu anjo da guarda e o seu anjo ''psicopompo'', que o acompanhará pelo mundo espiritual até o destino apontado pelo 'juízo particular' pelo qual vai passar. Os demônios, por sua vez, podem aparecer às centenas ou milhares, acusando e ameaçando o morto com faces monstruosas e iradas. Mas há também casos em que os demônios se apresentam belos, como seres de luz, provocando  pensamentos, sentimentos e ilusões de boa-aventurança, de modo a tirar o foco do indivíduo daqueles últimos momentos em que pode se arrepender de seus erros e se voltar para Deus. A maneira mais eficaz de discernir as ilusões demoníacas nesse estado é  lembrar que os anjos sempre evocam esta necessidade de metanoia, não necessariamente visões paradisíacas. 


c) Outro fenômeno universal é a apresentação diante da consciência de todos os atos experienciados pela pessoa ao longo de sua vida. Eles podem se apresentar de modo rápido, em ordem cronológica, ou se situarem diante do sujeito todos ao mesmo tempo, simultaneamente. Seja como for, o indivíduo tem percepção nítida de todos eles, testemunhando-os com agudeza. Este período é mais uma oportunidade para a metanoia e para a gratidão a Deus.


d) O indivíduo também pode ter a visão de outras pessoas que estão morrendo no mesmo momento que ela. Também ocorre, mais raramente e no causo de algumas pessoas santas, que sejam recebidas por Santos, Apóstolos, pela Toda Santa e Pura Theotokos ou até mesmo por Cristo Nosso Deus.


FIM DA PARTE 1 / CONTINUA


- André Luiz dos Reis

Homilia para o dia da Dormição da Mãe de Deus



Epístola: Filipenses 2:5-11
Evangelho: São Lucas 10:38-42, 11:27-28

“...Mais felizes são aqueles que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática” (Lucas 11,28)

Queridos irmãos, nesta semana comemoramos o dia em que a Virgem Maria adormeceu no Senhor. Sua alma nasceu em Cristo e foi transladada aos céus. No evangelho, Jesus Cristo comenta sobre duas atitudes diferentes perante a presença Dele, uma de Maria e outra de Marta. Maria escutava a palavra Dele e Marta andava atarefada com muito serviço, e Marta chamou a atenção de Jesus para que Maria lhe ajudasse.

Jesus lhe respondeu: “Maria está fazendo o que tem que fazer, isto significa que esta fazendo o essencial, que era escutar a Palavra de Jesus”.

Ao termino do evangelho Jesus diz: “Felizes são os que ouvem a palavra de Deus e as põe em prática.” Jesus vai alem da meditação e admiração. Ele avança as suas ações.

O que nos deixa essa mensagem do evangelho? Em nossa realidade vamos encontrar pessoas que meditam, pessoas que gostam de aprofundar na teoria e aos ensinamentos de Jesus, outros gostam do trabalho social, outros de trabalhos políticos e outros de trabalhos culturais etc. Jesus nos ensina a valorizar o trabalho de cada um, Ele não castigou Marta. E sim disse que Marta estava fazendo o que tinha que fazer.

Assim na Igreja, em nossa comunidade, vamos ter pessoas como Maria e Marta, uma complementando a outra, porem as duas servindo o mesmo Senhor. Uma se dedicando a meditação e outra a ação.

E na vida diária todos os dias apresentam opções e em cada eleição devemos distinguir o que é essencial e qual a sua importância. O essencial não se pode deixar de fazer, o importante às vezes sim. Nosso objetivo é encontrar esse equilíbrio.

Hoje, a mãe de Deus em sua dormição, e segundo a tradição reunida com todos os Apóstolos ao seu redor. No ícone da dormição, vemos sua alma que renasce. Ela que é o modelo da Igreja, de como dizer sim ao Senhor. Disposta a deixar tudo e ver seu próprio Filho morto na cruz, para salvar os demais.

Assim hoje, Ele nos reuni e nos convida para segui seu exemplo e ter o coração de Maria dispostos a amar a todos, aceitando-os como são incondicionalmente, por que esse é o verdadeiro amor, aceitar o próximo como é.

Maria é conhecida como a nova Eva, por que com a antiga Eva entrou o pecado e pela nova Eva vem a Salvação.

Que a nova Eva, a Mãe de Deus, seja nossa guia e consolo de nossas almas, para que encontremos a salvação em Jesus Cristo. Amém!

- Homilia de Padre Rafael Magul, 
pároco da Igreja Ortodoxa São Nicolau, Goiânia (GO)

sábado, 9 de agosto de 2014

Homilia para o 9º Domingo após Pentecostes


Epístola: I Coríntios 3:9-17
Evangelho: São Mateus 14:22-34

“Não seremos perfeitamente livres até que todos não o sejam” (Santo Agostinho)

Há os que pensam que para chegarem ao tão desejado bem que é a liberdade tudo vale, espionagem, invasão aos direito humanos, invasão a intimidade das pessoas e até intervenção política ou militar em outros países, quando na prática estão escondidos numa famosa frase do tão criticado Hitler, ao que eu pessoalmente também critico que diz “...não haverá paz nos homens até que o último não mate o penúltimo”.

Terrível que ainda países que promovem os direitos humanos pratiquem esta metodologia escondida no que aconteceu naquele dia 11 de setembro, será que estão usando o 11 de setembro para dominar as decisões e o rumo do mundo? Será que esqueceram que aquele dono da liberdade e arquiteto do universo é Deus, e que pagou muito caro sua liberdade, primeiro suportar ver os seus filhos caírem no pecado e logo dar o seu filho unigênito, Nosso Senhor Jesus Cristo, para regatar-nos da escravidão, do pecado e do poder mundano. E isto aconteceu para que não sejamos mais escravos do homem e nem do pecado.

Enquanto estamos apegados aos poderes mundanos, sem cuidar da integridade moral e dos valores das pessoas, estamos matando o penúltimo para ficarmos nós, e a pergunta é: esta é a democracia que se está promovendo, onde tudo vale?
Cristo com sua morte na cruz nos ensinou que nem tudo vale, que temos que defender nossos ideais sem medir consequências, e que o verdadeiro ser livre é aquele que está disposto a dar sua própria vida por um ideal.

Infelizmente hoje se está fazendo tudo ao contrário: se invade a liberdade e a intimidade da gente, uma pessoa é parada nove horas em um aeroporto sem ter causa justificável para isso. A pré-suposição da mesma entre aspas é preservar-nos e proteger-nos do terrorismo!

Se analisarmos como começou há três anos a história dos países árabes, que a chamaram de “Primavera Árabe”, o motivo entre aspas também, era teoricamente liberar os povos oprimidos. Mas o que conseguiram na realidade foi destruir os laços históricos de diálogo que se vem desenvolvendo entre estes povos. Pois nós sabemos bem, como disse o Papa Francisco, não haverá paz nos homens sem diálogo.

Hoje vemos como Yemen, Iraque, Líbia, Síria e neste momento também Egito, estão sofrendo as consequências de uma falsa primavera. A pergunta é: qual é o outro país que querem liberar? Se tivermos a resposta saberemos qual destruirão.

Por isso Santo Agostinho dizia que ele não se sentiria perfeitamente livre até que todos não o sejam.

Há países que matam com a desculpa de defender a democracia, são na prática escravos do poder, e nós como cristãos sentimos a dor deles e dizemos: que o poder verdadeiro não está fora do homem, está em nosso interior, em nosso coração, que para sermos livres na verdade, temos que nos liberar de nosso ego, das vaidades, da avareza, da mentira, da hipocrisia, das nossas paixões e da corrupção que está matando aos poucos o ser humano.

Eu serei livre, quando não ver mais nenhum pobre na rua sem rumo, quando puder ver aplicar a lei com justiça, quando não ver mais exclusão social, quando deixar de ver tanta corrupção nos distintos poderes humanos. Serei livre quando também puder ver uma sociedade mais justa e solidária.

Para ter esta virtude e conceito de liberdade, vale uma só coisa: compreender que a liberdade, como disse Santo Agostinho, é nosso bem maior, que não se impõe, a liberdade se constrói dia a dia, aceitando as pessoas com são. Se agirmos de outra maneira estaríamos fazendo muitos outros 11 de setembro, constantemente camuflados com o nome de “DEMOCRACIA”.

Sermos livres hoje é possível, mas nem tudo vale...

- Homilia de Padre Rafael Magul, 
pároco da Igreja Ortodoxa São Nicolau, Goiânia (GO).

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Quatro razões pelo qual o cristianismo primitivo se expandiu tão rápido


O rápido crescimento do cristianismo em seus primeiros séculos é ainda fonte de fascinação. Rodney Stark, um sociologista da religião que escreveu muito sobre este assunto, pontua: “Como um pequeno e obscuro movimento messiânico surgido na orla do Império Romano expeliu o paganismo antigo e se tornou a fé majoritária da civilização mundial?”.

Ao desenvolver uma resposta a sua própria pergunta, Stark combina pesquisa histórica com insights advindos de estudos social-científicos sobre movimentos religiosos e conversões. Entre tantos pontos que estudou, ele explana quatro razões essenciais para o crescimento do Cristianismo.

1. Redes Sociais

Sempre e sempre, pesquisas mostram que conversões religiosas geralmente ocorrem “através de redes sociais, através de uma estrutura direta e íntima de relações interpessoais”. Amizades diárias e contato pessoal entre os fieis comuns são razões que fazem a grande diferença, hoje e no passado.

2. Cuidar dos enfermos, viúvas e órfãos

Pragas, incêndios, desastres naturais, tumultos e guerra eram fenômenos recorrentes nas cidades onde os primeiros cristãos chamavam de lar. O que distinguia os cristãos nesse contexto era a resposta deles a estas calamidades. Ao invés de fugir para o campo e escapar dos problemas, eles ficavam e cuidavam de seus irmãos, como também dos não-cristãos.

Mesmo sem muito conhecimento de medicina, o simples ato de prover comida, água e abrigo as pessoas doentes aperfeiçoou amplamente o percentual de sobrevivência em tempos de epidemias generalizadas. Isso enviou aos pagãos uma mensagem poderosa de solidariedade ao oferecê-los uma mão amiga.

O resultado, com o tempo, transformou as relações sociais e a proximidade das pessoas com essa comunidade de fé tão dedicada ao serviço do próximo.

3. Posicionar-se contra adultério, aborto e infanticídio

Os antigo mundo romano não era tão querido para com mulheres e crianças. Homens casados poderiam dormir com outras mulheres livremente (especialmente prostitutas e escravas), e os frutos não desejados destas relações eram simplesmente abortados ou deixados para morrer.

Cristãos manifestavam-se contra estas práticas, exortando aos seguidores do Cristo que se mantivessem fieis ao matrimônio (mesmo os homens), como também cuidar dos mais vulneráveis da sociedade: os bebês. Muitos cristãos resgatavam estes bebês abandonados e os criavam como seus.

Essas crenças somadas à prática piedosa proporcionaram aumento de natalidade e adoção, e claro, dentro das famílias cristãs, que se tornavam maiores que as famílias não-cristãs.

4. Teologia do Amor

As ações descritas – cuidar do próximo, aliviar os enfermos, salvar bebês – refletia antes de tudo princípios teológicos do cristianismo. O mais importante de todos é a mensagem de que Deus ama o mundo que criou e pede aos que O ama para também amar seus próximos.

Em nosso contexto “pós-cristão”, tal ideia parece ser evidente ou clichê. Mesmo assim, um amor incondicional no qual você dedica sua vida ainda é uma ideia radical. E isto sim é tão pouco levado a sério hoje em dia, fica apenas na teoria porque se tornou para muitos apenas um “código moral” e não uma vivência espiritual.

Na ascensão do Cristianismo, Stark faz matemática, e mostra que este movimento que tinha apenas mil seguidores no fim dos anos 40. D.C cresceu facilmente para 35 milhões no quarto século. Se os cristãos vivessem segundo os costumes de sua época, jamais teriam aumentado seu número ou sequer expandido.

Implicações

Que faremos com todas estas informações? Primeiro de tudo, devemos abandonar a crença pietista de que a fé cristã cresceu por conta de milagres extraordinários. Obviamente a providência divina é sempre o fator mais essencial. Porém, olhar com atenção os fatores dos primitivos pode revelar que havia muito mais em jogo.

Ignorar que outros fatores contribuíram para o crescimento do cristianismo não ajuda muito: se os cristãos modernos acham que a Igreja primitiva cresceu de forma miraculosa, há muito pouco a aprender e nada a fazer. Tem oração, mas não tem ação.

A pesquisa de Stark mostra uma poderosa lição: o testemunho regular e cotidiano dos cristãos em amar o próximo, cuidar dos pobres, órfãos e enfermos em seu próprio contexto e comunidade é o que contribuiu para a expansão da fé.

Se nós, contemporâneos cristãos, queremos resultados semelhantes, devemos agir da mesma maneira e com a mesma compaixão intensa. Devemos ser fieis a Deus que se revelou pelo Verbo, o Cristo, e mostra que é necessário mais do que ir a Igreja, é necessário SER Igreja: esta mesma comunidade que adotou crianças, são filhos adotivos de Deus e precisam transmitir o amor recebido.


Tradução do artigo "Four Reasons Why Early Christianity Grew So Quickly", de Seraphim Danckaert.
Fonte: http://myocn.net/four-reasons-why-early-christian-church-grew-so-quickly/

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Por que pessoas ao redor do mundo estão usando este símbolo?

Arte de Rogermario Costa Uzai

Na última semana, o grupo terrorista ISIS (Estado Islâmico no Iraque e Síria) impôs aos cristãos de Mossul ou a conversão, ou propina, ou morte para quem desejasse permanecer na cidade. 

Para "facilitar" este trabalho sujo, picharam nas casas cristãs o símbolo mostrado acima, que é a letra "N" em árabe. É o símbolo utilizado para designar os NASRANI, ou Nazarenos, um "apelido" para os cristãos.

Como forma de protesto mundial  para que esta notícia não ficasse ofuscada pela mídia internacional, pessoas do mundo inteiro estão trocando a foto de seus perfis no facebook e fazendo manifestações pelas ruas utilizando este símbolo. 

Manifestação em Paris

Tal forma de humilhação é muito semelhante ao que fizeram com judeus alemães durante o regime nazista, obrigando-os a utilizar um pedaço de tecido com a Estrela de David com a inscrição "JUDE" (judeu).



Talvez mudar a foto dos perfis não mude a situação dos cristãos iraquianos e sírios, mas ao menos informa ao mundo e mantém em alerta até que se resolva. 

Enquanto isto não acontece, deve-se lembrar que todos os cristãos são nazarenos, Nasrani. A dor de nossos irmãos no Iraque é também nossa dor, por isto, convido ao leitor que também nos ajude com esta causa.

"Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós por minha causa. Exultai e alegrai-vos, porque é grande o vosso galardão nos céus; porque assim perseguiram os profetas que foram antes de vós." (Mateus 5:11-12)

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Igreja Ortodoxa deve ser construída no Memorial do 11 de Setembro nos EUA

projeto da nova igreja

Uma sofisticada e bela Igreja Ortodoxa deve ser construída na parte sul do Memorial & Museu Nacional do 11 de Setembro, onde ocorreu o atentado as torres gêmeas em 2001.

A iniciativa parte da comunidade grega, que quer reconstruir uma antiga e pequena Igreja Ortodoxa Grega que foi destruída durante o atentado e que existia no espaço antes mesmo da construção das torres. Assim como o antigo templo, o novo também será dedicado a São Nicolau.

antiga igreja, destruída durante o atentado

O arquiteto espanhol, Santiago Calatrava, que projetou o templo, disse que buscou inspiração em outras grandes obras arquitetônicas da Igreja Ortodoxa: Hagia Sophia e a Igreja do Salvador em Chora. Ambas de Istambul, antiga Constantinopla.

O projeto deve começar em 2016.